O economista e doutor pela Unicamp, Luís Estevam, reacendeu a discussão sobre a origem histórica de Goiás ao sustentar que Catalão representa o núcleo mais antigo do estado. Segundo ele, a narrativa tradicional ignorou registros de povoamento que remontam ao início do século XVIII. O pesquisador afirma que o município soma 304 anos de existência histórica e 167 anos de emancipação política, números que, em sua avaliação, alteram o entendimento sobre a formação goiana.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e autor de obras sobre economia, política e história regional, Estevam classificou a situação como uma distorção historiográfica. Ele declarou que Catalão permaneceu fora do reconhecimento oficial por décadas. Para o pesquisador, houve resistência em admitir o protagonismo do município no processo de ocupação do território.

Morrinho de São João, Cartão Postal de Catalão
O estudioso apontou diferenças no processo de desenvolvimento local. Enquanto diversas cidades goianas surgiram com a exploração do ouro, Catalão estruturou sua base na agropecuária, no comércio e na atividade industrial. Esse perfil, segundo ele, conferiu ao município uma dinâmica própria, distante do modelo minerador predominante no período colonial.
Outro aspecto citado envolve a preservação da identidade histórica. De acordo com o pesquisador, Catalão não alterou seu nome ao longo do tempo. O local evoluiu de Sítio do Catalão para Arraial, depois Vila e, por fim, Cidade de Catalão. Para ele, esse fator reforça a continuidade histórica do município.
No início do século XX, Catalão recebeu o título de “Atenas de Goiás”, por reunir intelectuais de destaque. O município também assumiu posição estratégica na economia estadual durante a primeira metade do século passado, com comércio ativo, produção agropecuária expressiva e presença industrial relevante.
Entre os episódios simbólicos, Estevam mencionou a Cruz do Anhanguera, considerada marco da criação de Goiás. Segundo ele, o monumento saiu de Catalão e seguiu para outro município, fato que, em sua análise, contribuiu para o deslocamento do reconhecimento histórico.
O pesquisador também recordou a eleição de 1954, quando um candidato ligado a Catalão venceu o pleito ao governo estadual, mas não assumiu o cargo após fraude reconhecida posteriormente pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ele avaliou o episódio como mais um capítulo de perda de protagonismo político.
Para Luís Estevam, Catalão construiu trajetória marcada por autonomia. Situada em área de fronteira, a cidade formou identidade sem submissão a centros políticos tradicionais. O economista sustenta que o debate histórico permanece aberto e exige revisão baseada em documentos e registros de época.
Matéria publicada no Dário da Manhã



